Saturday, February 28, 2015

Da época em que quase me finei

O gato dorme em cima do monte da roupa lavada. Já nada me importa nestes dias. Uma pessoa deixa de ser pessoa e quer ser bicho. Reconhece-lhes outros direitos. Gera-se um entendimento que se julgava impossível - que até pode ter nascido da falta de fé na humanidade.

A vida é uma caravana esquisita que me ultrapassa. Um comboio a cuja estação chego sempre tarde demais. Vejo-o partir e aceno aos amigos na última carruagem. Cravam os olhos em mim numa súplica, porque ainda acreditam que os vou apanhar na próxima paragem. Mas é mentira. Não vou. Fraquejam-me as pernas e paralisam-se-me os músculos todos do corpo, incluindo o coração - o mais forte, não era? Se o sangue não se me espalha pela matéria, como é que esperam que aja? Se a linfa se me congela nos vasos e já mal me arrasto pelos dias, como é que faço este pré-cadáver avançar? Em direção a quê?

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