Sunday, November 8, 2015


Faço testes de resistência. Analiso a tolerância do meu corpo ao teu, no tempo. 

Passaram-se mais de 12 horas. 720 minutos em concurso para fazer descambar este equilíbrio frágil de diretrizes que a custo plantei no espírito. 

Não me abandonar. Não se deserta um projeto de pessoa. Não temer. Não cortar o outro pelo caminho. Não levar tudo à frente. 

Linhas e linhas de código que tenho medo de ver falhar - impávida e serena - quando chegar a hora de premir o botão. 

Paralisam-me o pânico do abismo fusional, o medo da rejeição e o trauma, uma dezena de vezes revivido, do abandono, que é uma espécie de rio revolto cujo leito tudo consome à sua passagem.

Quero saber se o meu corpo sobrevive. Se não se mistura. Se continua ali. 

Toco-me de vez em quando e aperto-te também, para ter a certeza que a cena se deu mesmo, não vá a cabeça pregar-me partidas.

Wednesday, June 17, 2015

porque é que não sou capaz de guardar só o bom de nós? sem ficar alérgica, nostálgica e chorosa com as lembranças melosas, a pingar de ti. pegajosas. que se colam na parte de trás da cabeça e ma fazem pesar e me impedem de andar. arrasto-as. e os domingos de primavera cheiram-me a podre. odeio-te mais nesta altura do ano. 

Thursday, March 19, 2015

Nas relações, como nos cigarros, o pior vem no fim.

Tuesday, March 3, 2015

- não tenho paciência para o sexo fraco.
- isso deve ser uma maçada. com esse tipo de discurso está-se mesmo a ver que de outro tipo não consegue ter.

Saturday, February 28, 2015

Da época em que quase me finei

O gato dorme em cima do monte da roupa lavada. Já nada me importa nestes dias. Uma pessoa deixa de ser pessoa e quer ser bicho. Reconhece-lhes outros direitos. Gera-se um entendimento que se julgava impossível - que até pode ter nascido da falta de fé na humanidade.

A vida é uma caravana esquisita que me ultrapassa. Um comboio a cuja estação chego sempre tarde demais. Vejo-o partir e aceno aos amigos na última carruagem. Cravam os olhos em mim numa súplica, porque ainda acreditam que os vou apanhar na próxima paragem. Mas é mentira. Não vou. Fraquejam-me as pernas e paralisam-se-me os músculos todos do corpo, incluindo o coração - o mais forte, não era? Se o sangue não se me espalha pela matéria, como é que esperam que aja? Se a linfa se me congela nos vasos e já mal me arrasto pelos dias, como é que faço este pré-cadáver avançar? Em direção a quê?

Tuesday, September 23, 2014

Foi tudo perfeito. Até o fim. (E na volta é só porque sinto que a merda ainda mal começou.)

A temperatura: dos corpos, da vida, de uma noite de setembro quente - como um amor de verão que termina com um ano de atraso e, para mal dos meus pecados, sem terminar porra nenhuma.

O cenário: o rio ao fundo; o pôr do sol; a lua ao pôr do sol; depois a lua espelhada no rio; a relva macia; as crianças felizes - as putas das crianças com a puta da bola e nem elas me fizeram arredar pé, provavelmente pelo simples facto de que sou incapaz de te abandonar. Mesmo quando devia. Eu queria desertar-te. Eu queria enviar-te para essa batalha que tens de travar sozinho e dizer-te que és um cobarde porque andaste este tempo todo a esconder de ti próprio que não estás em condições de cuidar de nada. Que és incapaz de te comprometer, porque, no teu íntimo, sabes que para seres fiel a ti não podes dividir nada com ninguém. Ainda assim, apreciei de sobremaneira o esclarecimento. E amo-te mais por ele. Mas agora bem posso pegar nesse amor e metê-lo pelo rabo. Aliás, pelo ralo - que pelo rabo, ai cala-te boca.

E o que é que eu fiz?

Despedi-me de ti e pedi-te que fosses à tua vida. Cinco minutos depois, liguei-te e disse-te que era juntos que tinhamos de chorar a nossa morte. Trouxe-te para casa, abracei-te e servi-te sopa.

Sou ou não sou uma gaja do caralho?

No dia em que nos conhecemos falámos durante tantas horas que quando me levaste para casa adormeci-te nos braços em vez de te comer como queria. A merda já se tinha tornado metafísica. E aí fodeu. Quando a coisa começa inquinada assim, uma gaja sabe que só tem duas hipóteses: ou vai fugir ou vai cair de amores. Eu sou coxa. Fiquei a meio. E, ao contrário do que se apregoa por aí, a virtude nunca está no meio. No meio estão noites mal dormidas a pensar "fico ou não fico". No meio estão dúvidas insanáveis sobre a possibilidade de construir uma relação com alguém que tem a cabeça tão enleada quanto eu e muito menos vontade de desatar nós. No meio está um homem incrível, o mais sensual e o mais carinhoso do mundo, que quando precisas dele precisa muito de espaço porque se está a perder em ti. No meio estávamos nós, os nossos dias na cama, as gargalhadas, os delírios e os excertos lidos como quem oferece a um convidado as melhores iguarias que tem em casa. E quando abrimos a porta, estava a vida lá fora. Foi uma chapada tão grande, que ainda lhe sinto a mão a calcar-me a cabeça para baixo e os dedos a cravarem-se-me no pescoço. Depois da vida, entraram as histórias. O património emocional. Um longo desfilar de horrores que mataram a ideia do outro.

Vês? Uma página chegou-me.

Amo-te, mas não conseguimos ser juntos. És a história de amor mais triste da minha vida. Mas menti-te quando te disse que tinhas sido a maior desilusão.


Sunday, September 7, 2014

Hei-de chorar até não ter mais água dentro. Mas quando secar, faço-me lume.